terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Samba Paulista: do Bumbo à latinha de graxa





Demoraram pelo menos três séculos para que o batuque de Pirapora amanhecesse na Barra Funda, no Bexiga e na Baixada do Glicério, três dos principais redutos dos ex-escravos vindos do interior de São Paulo; aí veio o ”progresso” e o bumbo deu lugar para o metal da frigideira e da latinha


Samba rural, samba de bumbo, samba de lenço, jongo, samba de umbigada, samba campineiro, pernada, tiririca, batuque, tambu, Samba de Pirapora. É difícil saber até onde estes termos designam uma unidade ou uma diversidade. Improvável também é designar uma maternidade ou paternidade. Foi um somado de influências, que aí constam questões econômicas, políticas, religiosas e imigratórias. Todas elas responsáveis pela levada diferente do samba criado em São Paulo.

A importação de escravos do nordeste brasileiro para trabalhar nas lavouras de café no século XVIII, por exemplo, é vista como fundamental para o nascimento de um samba paulista. Foi desta migração que provavelmente vieram também as tradições originárias de Angola, como a umbigada ao som de tambores, que tinha como propósito homenagear a deusa da fertilidade.

Estima-se que 73% dos africanos que vieram ao Brasil são originários do que hoje é Angola, país da costa atlântica da África. Trazido pelos angolanos, o jongo (foto acima) e a umbigada (samba, em linguagem quimbundo) foram essenciais e trouxeram um tempero polêmico. Eram rituais de cunho religioso, fundados no ritmo e que, sobretudo na umbigada, carregavam uma estética sensual e ‘’imoral’’, na visão dos brancos europeus católicos.


Germano Mathias: Samba paulistano se caracteriza 

pelo uso de objetos do dia-dia urbano, como a latinha de graxa


Um dos primeiros estudiosos dedicados ao samba paulista foi o escritor Mario de Andrade. Ele, nos anos 30, publicou o artigo ‘’O samba rural paulista’’ e de certa forma trouxe à tona uma necessidade: conhecer melhor as origens daqueles ritos animados, cercados por gente feliz e que eram vistos com grandes reservas pelos fazendeiros e pela igreja católica. Abaixo, algumas impressões do autor de Macunaíma:

“Na terminologia dos negros que observei, a palavra samba tanto designa todas as danças da noite como cada uma delas em particular. Tanto se diz ‘ontem o samba esteve melhor’ como ‘agora sou eu que tiro o samba’. A palavra ainda designa o grupo associado pra dançar sambas. ‘O dono-do-samba de São Paulo me falou que este ano o samba de Campinas não vem’’. E outros acrescentaram que ‘a qualquer momento devia chegar a Pirapora o samba de Sorocaba’. Em 1933 os negros falavam indiferentemente samba ou batuque”.

Foi neste artigo que Mário de Andrade cunhou o termo Samba Rural. Na avaliação dele, as características desta manifestação rítmica tinham relações evidentes com o ambiente criado pelas fazendas, na vinda forçada de escravos africanos, cheios de rituais, para lida nas lavouras de cana de açúcar e café em São Paulo.


Do Samba Rural para o Samba Urbano

Um terreno de horizonte largo, cortado por uma linha de trem de trabalho intenso. São homens negros e fortes, ardidos pelo sol, mas felizes. São felizes e dançam, batem palmas, usam chapéus de palha e repetem cânticos arrastados e com uma leve tristeza. É o Largo da Banana, na Barra Funda, estamos no início do século XX. Era este o habitat dos costumes e das tradições da negraiada que, alegre e liberta das correntes da escravidão bailava no batuque improvisado do samba de bumbo e no gingado do caterete.

Com o suposto fim da escravidão no fim do século XIX, os negros migraram para a cidade de São Paulo em busca de oportunidades de trabalho. Encontraram uma cidade ainda sem os requintes industriais que mais tarde dariam a tônica nas relações sociais. Eles se alojaram principalmente nos bairros da Barra Funda, Bexiga e na Baixada do Glicério, mas o principal conglomerado ocorrera no Largo da Banana, local que hoje ocupado pelo Memorial da América Latina.


Largo da Banana na Barra Funda do início do século XX, 

palco de rodas de Tiririca e de batuque trazidos pelos ex-escravos


Rodas de tiririca (espécie de capoeira), cantorias de jongo parecidas com desafios de repente e rodas de samba eram comuns na paisagem destes bairros. De escravos, estes negros tornaram-se mão de obra de baixa especialização: carregadores, engraxates e entregadores de marmita.


A Influência Italiana no Samba Paulista

Junto aos negros, ex-escravos, se juntaram nos bairros da Barra Funda e principalmente no Bexiga italianos recém-imigrados que encontraram em São Paulo oportunidades de trabalho no comércio e posteriormente na indústria.

Desta mistura, nomes como Adoniran Barbosa e Germano Mathias seriam vistos mais tarde como símbolos do samba paulista, cujas grandes particularidades são o jeito italianado, a crítica às mudanças provocadas pelo progresso industrial e as referências diretas ao samba bumbo praticado pelos escravos.


Adoniran Barbosa: muito mais que um sambista, este foi um

dos personagens mais importantes da vida paulistana do século XX


É interessante perceber que o samba paulista urbano tem como característica uma certa melancolia – boa parte da harmonia dos sambas são construídas por acordes menores. Ressaltado pelo bumbo grave e evidente, temas relacionados às mudanças provocadas pelo progresso industrial, temas sociais, críticas políticas e aos costumes da sociedade paulistana do século XX.

É fato que o samba paulista nunca fez questão de ser alegre e festeiro, característica que pode ter gerado a frase ‘’São Paulo é o túmulo do samba’’, infeliz e precipitada análise realizada pelo poeta carioca Vinícius de Morais.

Samba de Bumbo

Pesquisas indicam que o primeiro registro da existência do samba de bumbo data de 1856. O documento encontrado fala sobre uma festa junina realizada em uma fazenda de café em Piracicaba. Por ter um caráter marginal, pouco ou quase nada ficou documentado sobre este tipo de cerimônia. Ficaram mesmo os ‘’causos’’, os filhos dos filhos dos protagonistas, e graça a lembrança dessas gentes a história cada vez torna-se mais clara.

Depoimentos indicam que o samba em Pirapora do Bom Jesus, município com pouco mais de 12 mil habitantes localizado há 54 quilômetros na região oeste da Grande São Paulo, acontecia já no fim do século XIX. Há indícios de que pessoas de cidades como Capivari, Itu, Tietê, Jundiaí e Campinas, e também do estado de Minas Gerais visitavam a localidade por conta do samba.

Pirapora é considerada como o grande pólo aglutinador do samba de bumbo paulista. O palco eram as senzalas e os terreiros e a dança era marcada pelo som de grandes bumbões, lapidados com fogo nos troncos de árvores enormes. Ao deixar o tronco oco, ele era tapado com couro de animais. O resultado de todo esse artesanato era a produção de uma batida grave e profunda, marca do samba paulista e que pode ser ouvida, por exemplo, nas músicas de Adoniran Barbosa, Geraldo Filme e Demônios da Garoa. Fora isso, o timbre grave ainda é marca perceptível nas baterias das escolas de samba paulistanas.

Estes tipos de percussão entoavam também as rodas de Jongo, uma dança religiosa e noturna, realizada geralmente no meio do mato. Os tambores jongueiros eram chamados de Caxambu ou Candongueiro.

É provável que tenha sido da fusão do samba de roda nordestino, trazido pelos jovens escravos vindos do Nordeste, com a dança do jongo que o samba de bumbo tenha sido criado. A inserção da viola trazida pelos portugueses deu liga a este caldeirão rítmico. Campinas pode ter sido o local de origem desta fusão de rituais e tradições. A cidade seria , nos anos 20 e 30 do século passado, uma força nas disputas com Pirapora do Bom Jesus pela hegemonia do samba.


O Apartheid de Pirapora

A tradição negra dos escravos africanos, mantida e enriquecida pela influência européia, não era vista com bons olhos pela igreja católica. Em Pirapora do Bom Jesus o samba era entendido como atividade profana, ou seja, contra a moral católica que sempre esteve profundamente ligada à cultura do município. Por isso, o culto do samba foi duramente reprimido, mas mesmo assim era realizado, de forma clandestina, na mesma época em que as festividades do ‘’Bom Jesus’’, nos meses de agosto.

Dona Mria Esther: A matriarca do Samba Paulista

Hoje, longe do carnaval de sambódromo, Dona Maria Esther carrega 84 anos de vida e toda uma tradição secular do samba de bumbo paulista. A idade não castiga - parece moleca, pula e gira enquanto canta. Na mocidade sofreu bastante, tomava ‘’surrinhas’’ de vara de marmelo do pai português por freqüentar rodas de samba, mas hoje importa mesmo é que ela venceu.


Dona Maria Esther, 84: patrimonio cultural e história viva do samba paulista


Para Dona Esther, como é conhecida, “a idade não regula, o que regula é o rebolado”. Nos anos 40, ela foi uma das fundadoras do Grupo Samba de Roda de Pirapora, iniciativa que mantém até hoje. Ela fez mais também. Da colaboração dela, São Paulo teve a primeira escola de samba, a Lavapés, dez anos antes.

Das dificuldades ela lembra também das espiadas que dava no barracão em que os negros dançavam samba. Até então, não era permitida a entrada de brancos,mas Dona Maria Esther soube romper esta barreira. De acordo com ela, de tanto tomar surras de vara de marmelo os sambistas aceitaram a sua entrada nas animadas rodas por piedade.

Ser mulher e branca no meio de um ritual exclusivo dos negros foi motivo de muitos olhares de lado. Foi dali que ela colecionou um casamento e cerca de outros 50 casos amorosos, de acordo com sua contabilidade.


Geraldo Filme

Um desses entregadores de marmita era um negrinho vindo do interior paulista, que trouxe do convívio com o avô a tradição da cantoria dos escravos. Era ele Geraldo Filme, que só tardiamente, após sua morte em 1995, seria lembrado como um dos sambistas fundamentais para o entendimento do samba paulista.

Sua mãe tinha uma pensão nos Campos Elíseos, bairro paulistano, e fazia marmitas. Cabia ao menino Geraldo entregar para toda a região, inclusive para a Barra Funda, bairro vizinho. Durante a vida, foi figura influente por entre as escolas de samba, sobretudo junto a Vai-Vai, escola do bairro do Bexiga.


Geraldo Filme: batuques, cantorias e violas
dedilhadas emoldurando casos do cotidiano paulista

Ficaram poucos registros fonográficos. Em 81, Geraldo gravou seu primeiro e único álbum. Apesar da pequena discografia, ele pôde resgatar do ostracismo parte de todo o lastro cultural deixado pelo samba de bumbo em canções como ‘’batuque de Pirapora’’ e ‘’ Tradições e Festas de Pirapora’’, que unem o timbre grave do bumbo com os ponteios da viola caipira.

Em ‘’silêncio do Bexiga”, Geraldo conta a história do sambista Pato n’ Água, morto em circustâncias ainda nebulosas envolvendo uma abordagem policial.  Tão importante quanto Adoniran Barbosa, as composições dele eram verdadeiras crônicas do cotidiano dos negros na capital paulista.


Enfim, a latinha de graxa( e a frigideira)

Engraxate nos arredores do pátio do colégio, Osvaldinho da Cuíca chamava os clientes batucando na latinha de graxa. A cuíca é o instrumento que lhe valeu o apelido, porém, ele ficou mais famoso por ter feito da frigideira de ferro um dos símbolos do samba paulista.

Até hoje, a escola de samba Vai-vai mantém a frigideira no samba por meio da ‘’ala das frigideiras’’ que compõe da bateria da escola.



Osvaldinho da Cuíca e marca o ritmo na frigideira:
hoje, trabalho de resgate das tradições do samba paulista
 passa pelo trabalho incansável dele

Hoje, quem ostenta uma brilhosa latinha de graxa é Germano Mathias, representante do samba sincopado. Nesta variante, é desafio para o sambista criar melodias redondas, perfeitas, com ritmo e balanço voltado para os bailes de gafieira.

Branco e morador do bairro da Casa Verde, ele é um dos principais responsáveis pela manutenção da tradição do samba paulistano. Diferente de Adoniran Barbosa, por exemplo, seus sambas são alegres, carregam um bom humor e uma irreverência que contrabalança com o protesto e com a melancolia.


E pra mostrar como anda a Barra funda...



Retirado do www.neilopes.blogger.com.br


EU VISTO ESTA CAMISA



Velha Guarda Musical do Camisa Verde e Branco


Não vou dizer que São Paulo é o “berço”, porque o samba, como é conhecido hoje, formatou-se no Rio, no longo eixo Praça Onze-Estácio-Osvaldo Cruz, depois de ocorrer sincronicamente em vários pontos do país, inclusive em terras paulistanas, desde pelo menos o século 19. Mas digo veementemente que o preconceito de uma certa intelectualidade litorânea carioca contra o samba paulista sempre foi uma rematada besteira. Que o digam, por exemplo, Jangada, Talismã, Sílvio Modesto, Murilão e os primeiros Originais do Samba, grandes artistas cariocas que acolheram e foram acolhidos pelo samba de São Paulo há muito tempo. Que se evoquem, também, a cumplicidade entre Padeirinho da Mangueira e Germano Matias; e a afinidade histórica entre o Largo da Banana e a Praça Onze – só para citar dois ou três exemplos. 

Diferenças, se houve e há, estão nas escolas de samba. Que, no Rio, deixaram há quase 30 anos, de ser expressão do poder e da cultura das comunidades negras, para serem a milionária atração turística que hoje são. E que em São Paulo, em sua maioria, ainda fitam, cautelosas, a bifurcação do caminho. 

Mas acima do mercado paira o samba, enquanto gênero musical e forma de sociabilidade. E isso fica evidente no recém-lançado CD “Canto para Viver”, belo e comovente registro, em sua qualidade musical e sua hostoricidade – o talento e o companheirismo de compositores e intérpretes da Velha Guarda da Camisa Verde e Branco realçado por músicos exponenciais e amigos como Edmilson Capeluppi, Luizinho Sete Cordas e a “família” Quinteto em Branco e Preto – cumprindo a função de mostrar que samba é samba e escola é escola. 

Isso, eu digo na condição de membro da “Irmandade dos Carmelitas Descalços”, irmão pobre que sou do produtor Carmo Lima. E de sambista que veste com orgulho a “Camisa” recebida nos anos 90, juntamente com o parceiro Wilson Moreira, como membro honorário da ala de compositores da querida verde e branco da Barra Funda. 

(foto: Andréa de Valentim)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Olivério Ferreira - O Xangô da Mangueira



Retirado do


Xangô da Mangueira, batizado Olivério Ferreira, 77 anos, 53 dos quais como Diretor de Harmonia da Estação Primeira de Mangueira, é um estilista sublime do samba.


Xangô da Mangueira iniciou-se no samba na escola de Samba União de Rocha Miranda, transferindo-se posteriormente para a Portela, onde foi discípulo do célebre Paulo da Portela. Após a saída de Paulo da escola, no início da década de 1940, Xangô seguiu Paulo por um tempo na Lira do Amor, porém, como também admirava a Mangueira, pediu permissão a seu mestre, sendo por ele indicado a diretoria mangueirense, onde Paulo da Portela também possuía grandes amigos. Na Mangueira, Xangô permaneceu pelo resto da vida, notabilizando-se como diretor de harmonia, cargo que ocupou por várias décadas. Foi também o intérprete oficial do samba da escola até 1951, sendo antecessor de Jamelão.[2] Na década de 1970, gravou quatro LPs pela gravadora Tapecar e desenvolveu extensa atividade artística, apresentando-se como cantor em todo o Brasil e no exterior. Como compositor, teve diversas obras gravadas por cantores como Clara Nunes e Roberto Ribeiro.

Se houvesse uma história social do samba, feita a partir de quem o vivencia e aprecia, aprenderíamos que existem dois tipos de sambistas: os cultores e os estilistas. Os cultores são músicos, cantores e poetas de enorme capacidade criativa que aprimoram a arte de compor e cantar samba. Já os estilistas são aqueles que simplesmente criam sua própria forma, única e original, de samba. Existem cultores que são até mais famosos que os estilistas, mas são os últimos que mantém a chama da inovação e comprovam a riqueza rítmica e melódica do samba. Xangô da Mangueira é o maior dos estilistas do samba em atividade e conversar com ele foi como fazer um passeio por partes conhecidas de nossa própria história que, estranhamente, somos forçados a esquecer. Foi também um enorme prazer e um ato de generosidade de um artista singular.

A idéia de estrear nossa nova editoria com Xangô vem do fato dele ser o melhor sambista desconhecido de sua geração. 

Um desconhecimento que é, obviamente, relativo. Embora tenha uma obra comparável a de personagens como Cartola e Nelson Cavaquinho, ele ainda não penetrou naqueles círculos de admiração nos quais artistas populares são "descobertos" por setores intelectuais de classe média, embora seu trabalho seja, há muito, reconhecido por seus pares e pelo público "não-formador" de opinião. A carreira em disco, iniciada nos anos 70, nunca foi tão bem-sucedida quanto, por exemplo, a de Martinho da Vila, cuja influência de Xangô é visível em vários sambas e calangos. Mesmo não tendo o devido reconhecimento, a obra musical de Xangô reúne cerca de 150 composições, muitas gravadas por ele mesmo em um compacto e em 4 lps lançados somente em vinil nos anos 70 e começo dos anos 80. Além de seus próprios discos, existem ainda as várias participações em coletâneas e tributos a outros artistas.

O estilo único de Xangô é a soma de vários talentos e fruto de várias vivências que se apresentam à medida em que conversamos. O talento mais aparente é o de cantor. A voz poderosa, que atraiu a atenção de Paulo da Portela, tem peso e sotaques ancestrais. A associação mais óbvia é com Clementina de Jesus, com quem dividiu palcos em uma turnê do antigo Projeto Pixinguinha. Por alguma razão misteriosa, os organizadores do projeto consideraram que ouvir Xangô e Clementina juntos deveria ser um privilégio apenas dos nordestinos, pois a turnê do show da dupla se limitou às capitais daquela região. O talento de compositor aparece nos sambas que misturam ritmos e personagens interioranos com uma picardia de sabor suburbano. A simplicidade dos versos estruturados em refrões, primeiras, refrões e segundas capturam o ouvinte em um universo de lavadeiras, pastoras, malandros, velhos batuqueiros e muitas rodas de samba.


Outro talento fundamental é o que o próprio Xangô chama de improvisador, uma atividade que só era possível quando as escolas de samba funcionavam realmente como escolas. O talento como improvisador levou-o a se identificar com o partido-alto, que se tornaria popular nos anos 70. "Eu achava bonito o partido alto", comenta Xangô, "quando os antigos formavam aquela roda e ficavam ali horas e horas cantando aqueles partidos e versando, os compadres com as comadres, uma coisa bonita mesmo". A maestria adquirida no partido-alto lhe valeu o título que dá nome ao seu primeiro lp, "O Rei do Partido Alto" (1972), seu álbum preferido. 

Nascido no Rio Comprido, bairro do Rio de Janeiro, Xangô passou a infância em um sítio em Paracambi, munícípio da Baixada Fluminense que, naquela época, poderia ser classificado como uma área de fronteira de expansão da antiga Guanabara. Daí, de sua mãe mineira (de Ubá) e de seu pai paulista (de Campinas), vieram o sotaque, o vocabulário e a inspiração em ritmos do interior. Adolescente, Xangô viveria em vários bairros do Rio de Janeiro (Rocha Miranda, Sampaio, Irajá, Pavuna), lugares que marcam a identidade de um tipo especial de carioca, o suburbano, que só merece alguma apreciação durante o Carnaval. Parte da genialidade do samba de Xangô está na forma como mistura ritmos populares distintos. A infância interiorana e a vida nos bairros da classe
trabalhadora da Rio consolidaram uma conexão distinta do clichê campo-cidade. Xangô une à roça ao subúrbio em sambas que falam línguas diversas mas mantém um espírito em comum ao estimular à participação com suas palmas e coros cadenciados.

Como Xangô destaca, "antigamente, não havia a segunda do samba". Foi improvisando, então, que ele começou a fazer música e a conviver com as escolas de samba. A carreira em disco, segundo ele, "só viria depois de um longo aprendizado". As primeira lições foram na Unidos de Rocha Miranda, onde foi aluno de Lilico, em algum período no começo dos anos 40 (as datas não vem claramente à sua memória). "Nesta época, eu via Cartola e Paulo da Portela no jornal e sonhava em ser como eles". Xangô também recorda que de um bom improvisador exigia-se bom ouvido, boa cabeça para versar, e a habilidade de "entrar no ritmo e na melodia e deixar o outro em boas condições".

Da escola de Rocha Miranda, Xangô foi convidado para desfilar em uma ala da Portela. É Xangô quem conta, com evidente orgulho, a reação do mítico Paulo da Portela, à sua voz, "Poxa, menino, você tem uma voz boa, deve aproveitar isto". Esta foi a deixa para que Xangô passasse alguns anos na tradicional escola de samba de Madureira, "improvisando com os grandes", como ele diz. Quando Paulo da Portela deixou a escola para atuar na Lira do Amor, Xangô o acompanhou como uma deferência especial. Mas a aventura da Lira do Amor não durou muito e Xangô pediria permissão ao professor para improvisar em outra agremiação.

"Mestre", disse Xangô, "estou com a idéia de ir para uma escola que admiro. Eu quero ir para a Mangueira". Paulo da Portela responderia, "Olha, a casa é sua lá porque eu tenho grande amizade, grande intimidade com o Cartola. Se você precisa de uma referência, eu estou aí para dar para você".

Além da referência ilustre, Xangô também já tinha achado seu caminho para a Estação Primeira por seus próprios meios. Nos bailes como o da Banda Portugal em clubes da Pavuna e do Irajá (os bailes eram uma variação das gafieiras da Praça XI), Xangô faria amizades com moradores da Mangueira que o apresentariam à direção da escola. Nem a referência ilustre, nem as novas amizades, no entanto, o livraram de ter que provar suas habilidades em um concurso onde teve que improvisar e versar em dupla com outros candidatos. Xangô relembra que deveria haver umas 10 duplas concorrendo naquele dia. Ele não só ganhou o concurso, com a auxílio de um parceiro com quem teve uma empatia imediata, como ainda foi escolhido 3° diretor de harmonia da escola.

A função não somente indicava que ele havia pulado vários degraus na hierarquia da Mangueira, mas também ajudaria a celebrizar sua presença no mundo do samba. Xangô fala do dia-a-dia na quadra da Mangueira em mais de meio século de atividade na função, "Eu adaptava as pessoas novas que chegavam para que eles entendessem o espírito da coisa". Xangô tornou-se conhecido pela paciência e cortesia. "Nunca xinguei uma pastora ou discuti com ninguém. Entro na quadra na hora em que o ensaio começa, e todos param de falar. Se tem alguma confusão, explico que todos têm que colaborar porque isto aqui é a diversão nossa. É a arena, o teatro da pessoa humilde".

A função inspiraria o seu parceiro mais freqüente, Jorge Zagaia, a escrever um dos mais belos versos da história do samba no partido-alto "Diretor de Harmonia", que ambos dividem no primeiro lp de Xangô. 'Sou eu o diretor de harmonia/aviso para entrar a bateria/sou eu quem manda o mestre-de-sala/se apresentar a porta-bandeira Maria/se estou errado me perdoa/eu sou o samba em pessoa/você já pensou/quando a velhice chegar/e eu não puder mais sambar'.

Ao entrar para a Mangueira, Xangô adicionaria o complemento nobre ao apelido que ganhou ainda na adolescência. Morando em Rocha Miranda, Xangô foi levado por amigos para trabalhar na fábrica de tecidos Nova América, no subúrbio de Del Castilho. "Naquela época, os garotos brincavam de apostar corrida com carrinhos de madeira. Os ingleses malandros logo viram que era melhor botar os garotos para trabalhar em vez dos velhos que não iam produzir tanto", ele relembra. Xangô foi então trabalhar na máquina de rolo e logo ficou conhecido como o engraçadinho que botava apelidos em todo o mundo, "Olhava para a cara do caboclo e dizia: Carranco! Jamelão! Chupeta!". Mas o próprio Xangô não tinha um apelido e um novo empregado iria alterar este fato com uma provocação simples. Xangô avisou ao novato que ele iria ganhar um apelido, porque todos ali tinham um, e sem perder tempo decretou, "Você tem cara de macumba, você vai ser o Macumba". O novato Macumba concordou, "Não tem nada, pode botar", mas acrescentou, "Qual é o seu apelido?". Xangô apenas respondeu, "Eu não tenho apelido", ao que Macumba replicou de imediato, "Não tinha! Se eu sou o Macumba, você vai ser o Xangô!".

As reminiscências de Xangô sobre os desfiles da Mangueira, onde morou por vários anos, são como preciosas crônicas de uma cultura que parece perder essência à medida em que ganha brilho e holofotes. Xangô conta com evidente saudosismo sobre os dois sambas-enredos, um de entrada e outro de saída, que toda escola escolhia para o desfile principal, e da função do diretor de harmonia de narrar o desfile para a comissão julgadora no alto do palanque em que esta se colocava. A excelência de uma escola e a perícia de seus membros eram medidas no momento da parada, quando a escola trocava de sambas. "Se errasse, era logo desclassificada", ele observa. Quando os desfiles não eram oficiais, Xangô conta como os membros da escola tinham que proteger a sua porta-bandeira contra os ataques de outras escolas. Explica-se: se fosse deixada sem proteção, a porta-bandeira de uma escola poderia ser gentilmente "raptada" por outro mestre-sala que não o seu par para ser exibida em outra agremiação. Cabia então ao descuidado mestre-sala original aceitar o duelo, indo em busca da parceira na escola "inimiga" para trazê-la de volta ao grupo original. 

Tais histórias foram vividas por Xangô ao longo de décadas no mundo do samba. Mas Xangô, como muitos outros sambistas da sua época, nunca viveu do samba. Aposentado como funcionário público federal, ele exerceu ao longo da vida as funções de operário, estivador, segurança e agente federal. Em certos períodos, ele acumulava dois empregos. Trabalhava como segurança em regime de plantão, mas tirava as folgas no cais do porto do Rio de Janeiro. O trabalho, no entanto, não o impediu de viajar com grupos da Mangueira por vários países da Europa e de comprovar como o samba brasileiro encanta as platéias de todo o lugar, incluindo os japoneses, que Xangô visitou antes mesmo deles se tornarem uma espécie de gravadora alternativa para sambistas que sequer sonham em gravar um disco no Brasil.

Ao longo de nossa conversa, Xangô também deixou claro que um improvisador não se faz sozinho. Foi esta apreciação pelo trabalho dos parceiros que transformou os discos de Xangô em trabalhos quase coletivos. Seus parceiros compõem e cantam com ele em várias faixas. Muitos deles, Jorge Zagaia, Waldomiro do Candomblé, Babaú da Mangueira, Aniceto do Império, são também artistas excepcionais. Em seu último lp solo, "Xangô Chão da Mangueira" (1982), um destes "parceiros" aparece com destaque especial. Dona Ivone Lara, levada para o mundo dos shows e das gravações pelo próprio Xangô, compôs para ele uma de suas músicas mais inspiradas ("é a sua cara", ela disse a Xangô ao entregar a música). "A Festa de Santo Antônio", uma ladainha com cadência de samba e versos que subvertem um hierárquico sincretismo religioso, é provavelmente a melhor interpretação de Xangô em disco.

Os dias atuais de Xangô são passados ao lado da esposa, Sonia, que organiza um impressionante acervo de recortes, troféus e memorabilia, em seu apartamento no Irajá. Além do museu particular, que ocupa um quarto inteiro do apartamento, Xangô também tem um altar budista em sua casa. O diretor de harmonia ainda cumpre suas funções na Mangueira e participa das atividades, agora mais intensas, da Velha Guarda da escola. Sobre o ressurgimento das velhas guardas, Xangô é cuidadoso. "O sujeito comprou a corda, carregou os instrumentos, organizou os desfiles, e agora gente que não tem idade para ser da Velha Guarda quer explorar os velhinhos. A Velha Guarda tem que ter o olho vivo porque tem muito material, muitas músicas, que eles nunca mexeram e hoje é hora de eles botarem para fora".

Por seu talento e pela convivência com outros personagens ilustres do samba carioca, Xangô da Mangueira poderia pedir filiação à mais de uma velha guarda, idéia que parece nunca ter passado por sua cabeça. Mas é isto o que passa pela cabeça de quem ouve o samba, outra parceria sua com Jorge Zagaia, que Xangô canta no recente CD da Velha Guarda da Mangueira, "Eu encontrei no Carnaval que passou/aquela que foi o meu grande amor/como estava bela/fantasiada com as cores da Portela/eu não pude resistir e chamei por ela/ela não quis me ouvir/a minha divergência com ela/é que eu sou Mangueira e ela é Portela".

Para nós, que tivemos o privilégio de ouví-lo cantar esta música em seu pequeno museu particular, é quase impossível não pensar que no coração verde-e-rosa de Xangô corre um pouco de sangue azul-e-branco.


E em 07.01.2009 Xangô é levado para reforçar o time dos céus...

que Deus o tenha em bom lugar...axé !!!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Toniquinho Batuqueiro alia tradições interioranas ao samba paulistano





RODRIGO SIQUEIRA


Toniquinho Batuqueiro, 76, veio de Piracicaba ainda menino para morar na rua Apa, nos Campos Elíseos. Orfão de pai e mãe, foi parar em uma região que é um dos berços do samba de sotaque e jeito paulista. Circulou pela Barra Funda, deu seus pulos nas rodas de Tiririca no Largo da Banana e frequentou rodas de samba por todas as "quebradas do mundaréu", como dizia seu parceiro e amigo Plínio Marcos. Hoje, é um dos integrantes, da Embaixada do Samba, organização criada em 1995 para representar e divulgar a história do samba paulistano.





Durante as gravações da quarta vídeo-reportagem da série sobre o samba de São Paulo, Toniquinho -há quatro anos praticamente cego por causa de um glaucoma- conta que aprendeu o samba "emprenhado pelo ouvido". "Meus avós tocavam tambu, dançavam tambu, tinha cururueiro na família, e eles me levavam. No 13 de maio, ia nas festas de negro atrás da Igreja do Rosário, em Piracicaba, que sempre tinha samba." 

Além de trazer o ritmo forte e grave típico do interior de SP, Toniquinho veio de Piracicaba com o ouvido "emprenhado" também pelo cururu, uma forma de desafio em versos improvisados e acompanhada de viola caipira. Toniquinho diz que já em São Paulo, quando sobrava um dinheirinho, o tio trazia o pessoal de Piracicaba para cantar um cururu na casa dele. "Eram quatro cantando aqueles versos pesados, destratando o outro, dois contra dois. Quando dava meia-noite, eles iam comer frango, leitão, aquelas coisas, tudo amigo. Dava um tempinho e eles passavam a mão na viola e começava a ´carreira do divino`, aí só podia cantar pro santo. E o cururu comia até de manhã", lembra Toniquinho. 

Na cidade, na década de 1940, Toniquinho se virava engraxando sapatos na praça da Sé. Mas, mesmo no "veneno", com dificuldade para levantar uns trocados, marcava presença no samba. No meio da rapaziada, tirava som das próprias caixas de engraxates até a polícia chegar e mandar parar tudo (para ver uma demonstração do batuque na caixa de engraxar sapato,veja vídeo-reportagem sobre Osvaldinho da Cuíca). 

Na São Paulo do tempo do bonde, segundo Toniquinho Batuqueiro, não se podia andar com um tamborim na mão que o sujeito ia preso na hora. E a perseguição aos pobres e negros não se limitava ao porte "ilegal" de tamborim. A polícia não dava refresco. "Em São Paulo, preto de sapato branco, em dia de semana, tava em cana", lembra o embaixador. 

Foi em um desses "güentas" que a polícia dava na rapaziada que o engraxate Batuqueiro conheceu o compositor B. Lobo, carioca e sambista que migrara para São Paulo e que depois tornou-se seu padrinho de casamento. Lobo já era compositor conhecido no mundo do samba do Rio, e estava em evidência com o samba "Abre-alas", que fazia muito sucesso na época. 

Plínio Marcos narrou o episódio em uma crônica para a Folha de São Paulo, de 5 de dezembro de 1976: 

"(.) O B. Lobo, por razões dele, resolveu emigrar pra São Paulo. E veio com tudo que tinha. Um terno e sapato marrom e branco. Segundo ele mesmo, foi o primeiro crioulo a usar sapato fantasia aqui em São Paulo. Se destacou logo que desembarcou, por essa bossa. Foi andando pela rua e não demorou pra polícia se apresentar: 
- Documento, negão. 
Ele não se fez de rogado. Alfaiate de profissão, não era nenhum vadio. Mas, mesmo assim, os homens estranharam ele e deram um alô: 
- Com esse sapato todo afrescalhado, tu não vai ter boa vida por aqui. 
B. Lobo não queria complicação. O primeiro engraxate que viu era um negrinho cheio de truques. B. Lobo deu as ordens: 
- Tinge esse pisante de preto e com capricho. 
O engraxate obedeceu e, enquanto trabalhava, batucava um samba na caixa. O B. Lobo se impressionou: 
- De quem é esse samba, moleque? 
Meio encabulado, o negrinho deu a autoria: 
- É meu. 
- Teu mesmo? 
- É. 
- Como é teu nome? 
- Toniquinho. 
E era o Toniquinho mesmo o engraxate. Toniquinho Batuqueiro, nascido e criado no Pau Queimado, sobrinho do Zé Almofadão, genial curuzeiro, e neto do Velho Silvério, maior tocador de tambu de todo o Brasil, além de ser um famoso macumbeiro. B. Lobo conheceu o Toniquinho e se sentiu em casa. São Paulo tinha samba. Samba da pesada. Então, ele se instalou e nunca mais foi embora." 

Também conhecedor da marginalização, o escritor e dramaturgo Plínio Marcos não era cronista de costumes de salão. Andava lado a lado com a rapaziada, remava contra a maré e defendia o samba paulista. 

Amigo fraterno de Toniquinho Batuqueiro, Plínio criou um espetáculo em que integrava seus textos à lavra dos sambistas-poetas-engraxates. Junto de Geraldo Filme e Zeca da Casa Verde, Toniquinho embarcou nas apresentações de "Nas Quebradas do Mundaréu", espetáculo e show que também foi mostrado com o nome de "Deixa Pra Mim Que Eu Engrosso", com a presença de outros sambistas. 

O espetáculo gerou um disco, gravado em 1974, que tornou-se fundamental para a história do samba de São Paulo: "Plínio Marcos em Prosa e Samba - Nas Quebradas do Mundaréu". O LP é uma raridade disputada nos sebos da cidade. 

Sabedor das dificuldades de sobreviver de sua arte, Toniquinho tem afiado o discurso da valorização do sambista. "Em show de branco e de artista da televisão, tem cachê alto, camarim e tudo. Mas quando é do samba, dizem que é bom pra divulgação. Eu já sou de idade, não quero divulgação, quero ganhar o meu pra engrossar a sopa. E promessa não engrossa a sopa de ninguém." 

Ao que parece, pelos seus versos, o aprendizado vem de longe. "Mandei preparar o terreiro que já vem chegando o dia / Eu vou encourar meu pandeiro preparar pra folia / Quando começar o pagode pego o pandeiro caio na orgia / No dizer de minha avó sambador não tem valia / Samba nunca deu camisa minha avó sempre dizia / Sambador não vale nada dorme na calçada não cuida da família / Quando começar o pagode pego o pandeiro caio na orgia". 

Atuante em diversas escolas de samba, Batuqueiro passou pela Vila Maria, pelo Império do Cambuci e outras, mas diz ter no coração a Unidos do Peruche, que ajudou a fundar junto com Carlão da Peruche. Ao lado de Carlão, na quadra da escola, Toniquinho orgulha-se pelo fato de ter uma "visão futurista" desde a juventude. "Eu sempre disse que a gente tinha que registrar os sambas da escola, para deixar alguma coisa pro futuro." Um disco saiu no início da década de 1970. São sambas que cobrem o período de dez anos da escola, da década de 1960. 

Em março de 2006, o projeto Memória do Samba Paulista renderá homenagem a Toniquinho Batuqueiro e lançará um novo disco com suas composições. "Se você quer construir uma casa, coloque um tijolo por ano que no final da vida você terá uma casa pra morar", aconselha o embaixador. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

"PÉ RACHADO E O CARNAVAL PAULISTANO"







Biografia Barroca Zona Sul

Biografia Barroca Zona Sul



A história da Barroca Zona Sul está diretamente ligada a Sebastião Eduardo do Amaral, este era o nome do mineiro "Pé Rachado" que veio com apenas 18 anos para a Paulicéia em busca de dias melhores para trabalhar no ofício de pedreiro nas grandes construtoras. Em Varginha aos 14 anos já organizava um bloco chamado "Voz do Morro"; ao chegar a São Paulo, deparou-se no bairro do Bixiga, um grande reduto de negros na época que acabara de dar luz ao Cordão Vai-Vai. Como havia poucos instrumentos na bateria, Pé só ingressou um ano depois, em 1931 onde iniciou tocando contra surdo e posteriormente tornou-se apitador da bateria. Com seu jeito organizador se tornou o primeiro presidente da alvinegra da Bela Vista e expulsou os maus elementos do samba, já que na época a marginalidade era forte e precisava de um grande líder, e Pé brigou até com Patonágua (maior apitador dos tempos de cordão) que apesar de ser ótimo de ouvido era péssimo em disciplina. Pé Rachado se tornou uma das principais personalidades da história da alvinegra do Bixiga, e foi ele quem deu oito campeonatos ao Vai-Vai de 60 a 67, um marco histórico no carnaval de São Paulo. Ajudou a fundar a Confederação das escolas de samba e cordões e posteriormente a Federação. Além da Vai-Vai, Pé desde Minas tinha uma paixão, a Mangueira do Rio, onde foi batuqueiro e harmonia aprendendo muito inclusive em matéria de ritmo e desenvolvimento de carnaval. 
Porém intrigas no inicio dos anos 70, fizeram com que Pé nomeasse José Jambo Filho (Chiclé) como presidente em 1972 e em 1973 Pé Rachado definitivamente se afastou da já Escola de Samba Vai-Vai. 



"PÉ RACHADO DEIXA A VAI-VAI" 

Ao se afastar da Vai-Vai, Pé Rachado andou por muitas Escolas com seus seguidores e em 74 desfilaram na Camisa Verde e Branco onde foram campeões e prometiam a si próprios que montariam uma escola de samba, mas uma escola diferente... depois do desfile Pé Rachado ficou um bom tempo no Rio de Janeiro no morro da Mangueira em parceria do seu grande amigo Cartola o grande sambista da verde e rosa, que muito incentivou que Pé fundasse uma escola, pois um grande sambista tinha que ter a sua escola. 



"A VILA MARIANA DOS SAMBISTAS" 

Em quanto isso no bairro de Vila Mariana onde Pé Rachado residia, os sambistas se agitavam com a possibilidade de montar um samba no bairro já que o Brinco de Ouro que desfilou nos carnavais dos anos 50 e 60 já havia acabado e os garotos de Vila Mariana na rua Santo Irineu não deu certo. O nascimento de uma escola de samba no bairro Serviria para unir as duas partes dividas entre o alto da Padre Machado dos sambistas da Vai-Vai e da rua Santo Irineu que desfilavam no Acadêmicos do Ipiranga, simpatizavam com a Camisa Verde e Branco e alguns participavam do Império do Cambucí. O refugio da rapaziada era o campo da Portuguesinha (barranco) e a sombra de uma mangueira na rua Santo Irineu onde batucavam sem parar principalmente na época de fim de ano, onde faziam um samba que chamavam de "Mangueira Paulista" de frente aos antigos cortiços. 



"NASCE A BARROCA ZONA SUL" 

Toda aquela expectativa no bairro naquele ano valeu a pena, pois na noite da quinta feira 07 de Agosto de 1974, na rua Padre Machado 42 dentro da casa de Pé Rachado fizeram-se presentes seus filhos Binha, Bira e Lobão, Dona Lurdes do Amaral, os jovens Ednei, Zé Carlinhos, Zé Francisco, Tornado, Galocha, Miguelzinho, Norberto Amaral Filho, Aracendi, Pedro Paulo, Encida, Maria Aparecida Amaral, Vera Lucia, Clélia, Áurea, Francisco Fabiano Júnior (Chiquinho), Gregório, Tamborim, Dorinho Marques, João Márcio, José A. Almeida e Valcir todos dissidentes da Vai-Vai cumpriram o que prometeram, fundaram uma escola e a denominaram Faculdade do Samba Barroca Zona Sul - Barroca, pois a região era acidentada e era o nome do campo da Portuguesinha e foi sugerido por Valter Japão e Zona Sul para não limitar a escola só à região de Vila Mariana, Ipiranga e Jabaquara e sim para todos que quiserem participar da escola viessem com orgulho representando a região. Faculdade do Samba pelo fato de todos sambistas da fundação apesar da maioria jovens todos já tinham vivencia sambística e muito conhecimento com grande sambistas - e a Barroca realmente se tornou a Faculdade do Samba de São Paulo, basta olhar o currículo dos grande sambistas que estão aí. Verde e Rosa não poderia ter vindo de outro lugar, veio da Mangueira escola a qual viria a ter grande laço de amizades. O primeiro ensaio aconteceu no campo do Brahma na Padre Machado com Santo Irineu onde Mestre Binha reuniu a molecada da área para formar a bateria que foi considerada a melhor de São Paulo sendo formada apenas pôr garotos somados a experientes batuqueiros. 



"OS PRIMEIROS ANOS - GLÓRIAS E GLAMOUR" 

Presidida por Sebastião Eduardo do Amaral Junior (Lobão), logo no primeiro ano foi campeã do primeiro desfile que participou no Grupo III em 1975 (desfile na Lapa), repetiu a façanha em 1976 e venceu o Grupo II na Av. São João, alcançou o Grupo I (hoje grupo especial) em 1977 onde se firmou como uma grande escola, e nesse ano inaugurou sua sonhada quadra na Rua Paulo Figueiredo tendo como ponto de partida seu batismo feito pela Estação Primeira de Mangueira tendo como padrinhos Mestre Cartola e sua esposa Dona Zica e a partir dali a Barroca era palco de grandes encontros de sambistas de todos os cantos do Brasil. No carnaval de 1978 novamente ficou em 7o lugar, se firmando definitivamente no cenário das grandes escolas de samba da cidade de São Paulo. 



"BARROCA INOVA NOS ANOS 80" 

Em 1979 a Nação Barroca é presidida por Osmar César de Carvalho fundador da FESEC e na época presidente da UESP.O vermelho e branco é inserido ao Verde e Rosa, Mestre Fubá e Mestre Bolão comandaram o bom ritmo da bateria nota 30. Seus marcantes carnavais nos anos 80 foram "Futebol no Carnaval" em 82, "75 Anos de Imigração Japonesa no Brasil" em 83 já com o presidente Antonio Canallonga (Tonhão), 84 "Novo Paraíso" e "Chico Rei" em 85 um carnaval todo artesanal com materiais como bambu, palha e barro graças à inteligência de um ex-mestre-sala do carnaval de São Paulo, o Mestre Batucada, já com o presidente Eumar Meirelles. 



"BARROCA DA A VOLTA POR CIMA" 

Depois do carnaval de 85 onde não ganhou o carnaval pela penalização de 4 pontos por atraso, a escola acumulou dividas e perdeu a sua quadra e em 86 o carnaval não foi um dos melhores e caiu para o grupo II. Parecia o fim da trajetória de uma escola de samba, berço de bambas - passou a ensaiar na Rua Santo Irineu e em 1987 foi campeã do Grupo II tirando nota máxima em 9 dos 10 quesitos em julgamento, voltando assim em 1988 ao grupo principal desfile marcado pela apresentação de Gabi e Beth. Em 89 Mario Rodrigues assumiu a presidência e em 1990 presidida por Geraldo Sampaio Neto (Borjão) com o enredo "Segredo do Amor" alcançou o quarto lugar que é sua melhor colocação no grupo especial e a escola consegue a atual quadra no bairro da Água Funda. 



"BARROCA DOS TEMPOS DIFICEIS" 

Nesse período muitas perdas aconteceram: a saída de Eumar e Batucada e as mortes de: Beth porta bandeira, Osmar César de Carvalho, Pé Rachado, Mestre Fubá e Mario Millonga, da harmonia, abalaram muito a escola no decorrer dos anos 90. Em 1994 a Barroca Zona Sul mesmo com dificuldades, desfilou muito bem, porém acabou sendo rebaixada para o Grupo 1. De 95 a 96 foi presidida por José Augusto Faustino (Baio), em 1997 voltou ser presidida pôr Borjão e depois de 8 carnavais na fila, com muito esforço e sofrimento em 2002 com o enredo "A Magia dos Jardins da Verde e Rosa" voltou a conquistar um título e a fazer parte das grandes escolas de São Paulo. 



"A NOVA BARROCA" 

Mas o ano de 2003 não favoreceu a nossa Barroca Zona Sul, tendo o presidente Luiz Paulo dos Santos grande conhecimento administrativo, depois de reformar a quadra, atrair muitos artistas para os ensaios e a confiança da comunidade a escola ficou na última colocação, mas em 2004 estará no grupo especial no ano da comemoração dos 450 Anos da cidade de São Paulo com o enredo 450 Anos de Fé e nos 29 Anos de Barroca toda comunidade espera fazer um bom desfile. 


Fonte: www.BarrocaZonaSul.com.br

sábado, 22 de novembro de 2008

A chama não se apagou








Quilombo: Nome dado às comunidades que os escravos negros construíram depois de fugirem de seus trabalhos escravos no Brasil Colonial. Os quilombos abrigavam negros fugidos, índios e brancos pobres que viviam em harmonia e liberdade. O mais famoso dos quilombos – o de Palmares – localizava-se na Serra da Barriga em Alagoas, e resistiu por mais de um século tendo à frente seu grande líder ZUMBI, morto pelas bandeiras paulistas comandadas por Domingos Jorge Velho. O mito negro transformou-se em moderno símbolo brasileiro da resistência do africano à escravatura.


RIO DE JANEIRO, ANOS 1970


Em 08 de dezembro de 1975, inconformado com os rumos que as escolas de samba cursavam, o carioca ANTÔNIO CANDEIA FILHO deixou sua tradicional e querida Portela - onde questionou o gigantismo e a descaracterização de uma verdadeira escola de samba – e prevendo toda a desvalorização da cultura afro-brasileira e do samba em si na decadência das composições, aceleração do ritmo, banalização dos enredos, CANDEIA fundou juntamente com Martinho da Vila, Monarco, Nei Lopes, Wilson Moreira, Doutor e tantos outros grandes bambas o GRÊMIO RECREATIVO DE ARTE NEGRA ESCOLA DE SAMBA QUILOMBO; a escola de samba que veio para preservar a memória e as raízes do samba e da cultura afro-brasileira em sua essência. 
O Quilombo por muitos anos abriu o desfile das escolas do grupo principal do Rio de Janeiro e mesmo após a morte de Candeia o G.R.A.N.E.S. Quilombo continuou e não se corrompeu ao capitalismo do carnaval; a comunidade está viva no bairro de Acari no Rio de Janeiro.


SÃO PAULO, BAIRRO DA SAÚDE – TRÊS DÉCADAS DEPOIS


A Escola de Samba Barroca Zona Sul teve o mais jovem mestre de bateria da história do samba de São Paulo: Thiago Praxedes - Mestre Thiago - aos 21 anos, três meses antes do carnaval de 2005 assumiu a bateria da escola e fez um grande trabalho (depois de cinco carnavais a bateria da agremiação voltou a conquistar a nota 30) até que em agosto de 2006, descontente com a gestão que acabara de entrar na direção da escola, deixou o cargo. Sensibilizados, muitos de seus ritmistas seguiram-no quando assumiu a bateria do Brinco da Marquesa onde novamente fizeram um ótimo trabalho obtendo nota 30, a nota máxima. 


Pós-carnaval, Mestre Thiago deixou a escola para cuidar de sua vida pessoal. Foi quando o amigo e carnavalesco André Machado (na ocasião no G.R.C.S.E.S. Império de Casa Verde) sugeriu que eles fundassem uma “escola de samba”... A principio, Thiago ressaltou que a idéia parecia impossível pelas desilusões vividas por muitos do grupo dentro do mundo do carnaval.  Os dois procuraram então João Paulo Caumo (o Capitão, um dos diretores de bateria do time de Mestre Thiago) para discutir a idéia, ele também animou-se e aderiu à idéia; André lembra que Fernanda Rodrigues, esposa de João, riu da idéia e disse que os três eram loucos! Ela também acompanhou as dificuldades da turma de Thiago na época de Barroca... dias depois a loucura começaria a tornar-se real!
Para o dia 13 de Maio de 2007 fora marcada uma reunião na casa de André Machado, na Vila Guarani, contudo esta foi adiada e num curto tempo a idéia começou a surtir efeitos e tomar proporções reais – eram conversas nos costumeiros encontros desse pessoal sambista de coração na Avenida do Café na barraca de “churrasco do Paiva”, pai de João Paulo.
Foi depois de uma batucada no aniversário de 15 anos de Mariana (sobrinha de João Sampaio, também do time de ritmistas) que a idéia de fundar uma grande entidade foi assumida como responsabilidade à memória do samba pelo grupo o que animou de vez Thiago.


FUNDAÇÃO DO G.R.E.S. QUILOMBO


No sábado dia 07 de Julho de 2007 (07/07/07) às 11 horas da manhã, sob um sol forte regado a muita emoção e energia positiva aproximadamente 50 pessoas entre ritmistas, pesquisadores, historiadores, engenheiros, comerciantes, estudantes, profissionais de diversas áreas; pais e mães de família, mas antes de tudo, sambistas de coração compareceram à reunião de fundação do GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA QUILOMBO.


A reunião foi na casa da Família Sampaio, na Rua dos Caciques, 488 no bairro da Saúde, sob a autorização de Dona Miriam (mãe de João Sampaio) – que já temia as batucadas e os vizinhos.  E assim, os fundos do quintal ficou sendo a primeira sede social da escola. A Família Sampaio aderiu à escola visto que também são tradicionais membros de escolas de samba.


Unânime foi a opinião sobre a presidência da nova agremiação: mesmo não querendo Mestre Thiago assumiu a frente da escola. O amigo e ritmista, João Sampaio foi eleito vice-presidente.


Logo foram chegando sambistas de várias escolas, amigos, simpatizantes e uma grande família começava a formar-se: Valmir Alfeu, sobrinho do saudoso Osmar César de Carvalho (fundador da FESEC, ex-presidente da UESP e da Barroca Zona Sul) é empossado diretor de harmonia;Edna Carmo Bueno chefiou os casais de mestre-sala e porta-bandeira; o departamento socialficou sob a responsabilidade de Laudely Sampaio e o departamento feminino sob o comando de Renata Bueno, esposa de André Machado. Cláudio da Silva (Cebion), ex-diretor de harmonia da Barroca, também descontente, chega para ser o diretor de carnavalAndré Machado é nomeado carnavalesco oficial e Fernando José Prado (Noel) o responsável pelaAla MusicalRiomar Souza e Saletti Sampaio ficaram responsáveis pela chefia de alas. A ala das crianças, futuro do Quilombo, sob o comando de Renata de Melo e Juliana Sampaio.
Dona Marisa, que têm três de seus quatro filhos na bateria de Mestre Thiago, é a comandante da Ala das Baianas; à Tiago Siqueira, também filho de D. Marisa, e Humberto Alves coube a comissão de apresentação de enredo, visto que à frente do Quilombo sempre caberá a velha guarda de bambas do carnaval paulistano guardada sob a responsabilidade do fotógrafoWagner Celestino.


De grande ênfase no contexto de fundação quilombola, o departamento cultural coube aRobson FerreiraMarcos Lopes (Kinho) é o relações públicas da agremiação; Márcio da Silva(Badú), diretor de marketing e Laerte Vieiradiretor de eventos.


As finanças quilombolas ficaram sob a direção de Ricardo Demiquili e Thiago Lenci (Castor).
Lílian dos Santos foi nomeada 1ª secretária e Fernanda Rodrigues2ª secretária; depois substituída por Juliana Bueno.


Além de todos os nomes já citados, também foram importantes colaboradores para a fundação do G.R.E.S. Quilombo: Felipe Fernandes (Dog), Luís Borelli, Aquiles BorgesTaylor Igi, Claudemir Santos (Tospin), Jhonatan de Oliveira, Rodrigo Nicolisi (Digão), Edilaine Oliveira (Kuka), Gislaine Oliveira, Rodrigo Oliveira (Digo), Liliane Oliveira, Sérgio Din (Sé) e Régis Lopes que assinaram a ata de fundação da escola.


O nome da agremiação foi sugestão de Mestre Thiago em homenagem ao G.R.A.N.E.S. Quilombo de CANDEIA e à força que o nome tem em sua composição e representatividade: oG.R.E.S. QUILOMBO seria o "refúgio" e "abrigo" de sambistas de coração e surgia para reunir todos de muitas bandeiras de resistência na luta em pleno século XXI para devolver às escolas de samba suas verdadeiras raízes – a formação de um cidadão sambista e consciente à história sócio-política da formação da cultura afro-brasileira. 


As cores VERDE E BRANCO que dominaram a nova agremiação foram definidas por não haver na Zona Sul paulistana nenhuma agremiação assim definida, mas homenageiam principalmente a relevância da IMPÉRIO SERRANO, talvez hoje a única escola de samba resistente às imposições capitalistas no carnaval, mantendo suas raízes e fiel aos seus ideais culturais como o samba e o jongo – “... uma dama da alta nobreza!”. 


A agremiação carioca também foi escolhida pelo fato de ser a escola de coração da maioria dos idealizadores e apoiadores da nova agremiação. Crescido ao som dos discos de Roberto Ribeiro, Mestre Thiago é desde 2002, ritmista da Império. 


Foi o clássico “BUMBUM PATICUMBUM PRUGURUNDUM” samba-enredo da Serrinha em 1982 que inspirou o início da carreira do carioca André Machado como carnavalesco em 1987 ainda em sua terra natal, no bairro de Cavalcanti, subúrbio do Rio, pela “Em Cima da Hora”.


O símbolo da agremiação desenvolvido por André Machado é uma coroa constituída de cinco folhas de mariô (um tipo de palmeira, lembrando Palmares) com búzios, também em homenagem à IMPÉRIO SERRANO. Em suas hastes e nos arcos mais duas folhas de palmeira que lembram a resistência de Palmares e o povo escravo jogado às margens da sociedade pós a Lei Áurea em 1888 e que tempos depois virou “Rei” do carnaval mesmo em meio às dificuldades e discriminações, que perduram até hoje agravadas pelo surgimento e espantoso crescimento das“Super Escolas de Samba S/A”.


O número sete se faz presente na data de fundação da agremiação (07/07/07). São sete também os búzios visíveis na coroa; ao todo sete folhas de palmeiras, nas duas palmeiras laterais suas folhas se somadas dão 34, se somados os dois algarismos mais uma vez nos deparamos com o número sete. Acima das cinco palmeiras centrais há contas, totalizando 70: 7+0 = 7. Os raios verde e branco no pavilhão e as letras e pontos de bambú que formamG.R.E.S. Quilombo são 16: 1+6 = 7.


Simbólico no candomblé, sete é o número do orixá Ogun – o grande guardião, deus da defesa, da guerra, da luta; a convicção e a certeza. No sincretismo religioso ele é São Jorge, o santo guerreiro, e sob sua bênção e de Oxum (Nossa Senhora da Conceição) está o Quilombo, mais uma vez retomando a tradição de padroeiros para a agremiação. A subida de ritmo da bateria com características ligadas aos toques de terreiro reverencia o orixá.


Acima da coroa está o sol, símbolo da liberdade.  A coroa nos foi tirada, mas a QUILOMBO vem para devolvê-la aos seus verdadeiros reis - o POVO, e também com o intuito de "Não ser rei só na folia" como diria Candeia em “DIA DE GRAÇA”.


E assim, com fundamento na cultura base - a cultura afro - foi feito um assentamento, como no candomblé, ficando na árvore de mariô o símbolo da preservação de nossas raízes. Os caminhos e as portas estão abertos!


A escola não tem como objetivo principal a disputa do carnaval, que deturpou a simplicidade da festa. Nossa missão é defender e resgatar as raízes do samba e da cultura afro-brasileira em memória e respeito àqueles que plantaram nossas raízes no passado; valorizar os fundamentos das escolas de samba em sua essência (como a cadência do ritmo da bateria, a ala das baianas, ala de passistas – sem apelo ao comercial culto estético) inovando de uma maneira na qual a cultura não seja corrompida. Estudar, pesquisar e debater temas ligados à cultura popular brasileira e manifestações de raízes afro.


Para muitos o G.R.E.S. QUILOMBO nasceu num momento impróprio; para outros no melhor momento, principalmente para revalorizar os sambistas de São Paulo, grandes deles hoje esquecidos. Quando anunciou-se a fundação da escola, Mestre Thiago e seus companheiros foram taxados de loucos e malucos por derrepente não saberem o que estavam fazendo... mas o ideal já estava à frente de tudo!


Uma escola sem dono, sem se submeter às coisas extra-samba, sem vínculo comercial e sem deturpações! Quem impera é o samba e seus fundamentos!


Os primeiros instrumentos foram doados por Felipe Ogawa (Buda) e Marco Zanotto(Marquinho), e fazendo arrecadações aos poucos foram comprados os demais instrumentos. Com o dinheiro de arrecadações também foi confeccionado o pavilhão da agremiação e feito o registro da entidade com a seguinte descrição: GRÊMIO RECREATIVO EDUCACIONAL E SOCIAL QUILOMBO – a sigla mantém-se G.R.E.S. Quilombo.


O HINO 


Freqüentador de projetos de samba, certo dia no Samba da Vela, Mestre Thiago expôs a idéia da nova escola e, por coincidência, um dos membros que estava na roda do samba, o sambistaMaurílio de Oliveira do Grupo Quinteto em Branco e Preto cantou um samba que havia perdido no G.R.A.N.E.S. Quilombo de Candeia em 1977 num festival de samba de quadra de autoria deZé Luiz da Velha Guarda do Império Serrano, porventura samba que ele readaptou e gravou no terceiro cd do grupo.
Antes mesmo do cd ser lançado, Maurílio deu a gravação a Mestre Thiago que emocionado levou-o aos membros do G.R.E.S. Quilombo... aí estava o hino da escola cujo nome é “Manhã de Carnaval”.


A PRIMEIRA FESTA


Entre rodas de samba na sede social aos sempre aos sábados surgiu a idéia da primeira festa da agremiação. Então no dia 07 de Outubro de 2007, na sede do E.C. Moleque Travesso na Vila Guarani, o Quilombo apresentou-se para a comunidade.


Foi uma Festa do Chopp; a cerveja, bebida do orixá Ogun.


Entre as atrações o Conjunto Nossa Chama, Grupo Feitiço de Mulher e o Quinteto em Branco e Preto. Contudo, o ápice da festa foram as homenagens a grandes sambistas da velha guarda do samba de São Paulo como Mestre LagrilaMestre Tadeu e o Sr. José Antonio da Vai-VaiDona Nena do Brinco da MarquesaMestre BatucadaDona BiaTia NairValmir CachoeiraDona Maria Helena Dica da Rosas de OuroMestre Funga do Flor de LizSeu Tico dos Cabeções de Vila PrudenteZé Maria, Bernadete e Júnior do Peruche também estavam presentes, além de muitos outros grandes!


Montada a bateria Mestre Thiago anunciou a subida do ritmo, a harmonia sob o comando deValmir Alfeu e Cláudio Cebion se posicionou; departamentos feminino, social e cultural se uniram; Alécio Reis e Renan Pinto no canto, Walter Jr. ABC no violão e Clayton Campos no cavaco também se preparavam sob o comando de Fernando Noel, também acompanhando seu time no cavaco. Ismael Macumba e Jefferson Pitico nos atabaques à frente da bateria... era oCanto das Três Raças, samba gravado por Clara Nunes.


A comissão de frente com sua dança afro causou emoção; mas quando a ala das baianas chefiada por Dona Marisa entrou com a água de cheiro e defumadores, calorosos aplausos tomaram o ambiente e eis que Dona Rose entregou a Mestre Thiago a imagem do padroeiro São Jorge; os tambores rufavam! A ala musical muda o samba e agora todos cantam juntos“Pra São Jorge” gravado por Zeca Pagodinho... a emoção foi geral e eis que a bateria entra e o pavilhão da escola portado por Monalisa Bueno e Pedro é apresentado á comunidade, os sambas cantados foram “Heróis da Liberdade” do Império Serrano de 1969 e “Ao Povo em Forma de Arte” do Quilombo de Candeia de 1978, que foi gravado por Martinho da Vila, Conjunto Nosso Samba, Roberto Ribeiro, Nei Lopes e Wilson Moreira; os dois últimos autores do samba e que conseguiram assim imortalizar a obra.


Lágrimas, emoção, chopp, gente bonita de todas as idades! A primeira festa da escola reuniu mais de 1000 pessoas!... Era o surgimento do G.R.E.S. Quilombo, a bateria deu um show à parte com seus repiques e cadência inigualável, como diz Mestre Thiago a “Batucada 1000 Grau”.


OS PRIMEIROS ENSAIOS 


Passada a festa era preciso um local para os ensaios. No Moleque Travesso não foi possível; a Rua dos Caciques, localização da sede social quilombola, situa-se num bairro residencial. 
Mestre Thiago e Marcos Lopes, o Kinho, conseguiram autorização junto à prefeitura local e firmaram uma parceria com a associação de moradores do bairro da Água Funda, e num espaço público na Rua Professor Roberto Mangue s/n, o Quilombo iniciou seus ensaios. Porém, devido a problemas extras, a entidade teve que parar suas atividades por alguns dias; mesmo assim cada vez mais chegavam pessoas para participar da nova escola de samba que já era sensação nas demais agremiações da cidade de São Paulo.



QUILOMBO NO LANÇAMENTO DO CD DO CONJUNTO NOSSA CHAMA


Mestre Thiago e um grupo de 15 ritmistas apresentaram-se no lançamento do CD do Conjunto Nossa Chama no Espaço Santa Clara junto com vários artistas do mundo do samba.


QUILOMBO INVADE O CENTRO DE SÃO PAULO


O dia 20 de Novembro de 2007 não se apagará tão facilmente da memória dos componentes do Quilombo, que fora convidado pelo Movimento Negro a participar do dia da “Consciência Negra – Zumbi dos Palmares” no centro da cidade. Cerca de 200 quilombolas concentraram-se para o evento e às 17 horas Mestre Thiago armou a bateria em frente ao Teatro Municipal; as baianas e a comissão de enredo, caracterizada com trajes afro, formaram uma procissão e surpreenderam os organizadores do evento, que tinham no momento a Leandro de Itaquera apresentando-se com um grupo de 30 sambistas.
O Quilombo começou e quase não pára de tocar em protesto; a Guarda Civil pediu gentilmente que a bateria parasse e que o pessoal dispersasse, e assim voltaram todos de metrô vestidos de trajes afro... Um dia marcante.



QUILOMBO NA FEIRA PRETA 2007


O Quilombo foi a primeira escola de samba a se apresentar na “Feira Preta” do Anhembi, evento que acontece todo ano e tem participação de todos gêneros musicais afro-brasileiros da cidade de São Paulo.



QUILOMBO NA VILA GUARANI


Por ironia do destino o novo local disponibilizado pela subprefeitura para os ensaios do G.R.E.S. Quilombo foi a Praça Barão de Japurá na Vila Guarani, bairro onde residem a maioria dos componentes da escola. Então foi lá que em dezembro de 2007 e janeiro de 2008 a escola ensaiou todos os domingos à tarde reunindo famílias inteiras ao som da bateria, de sambas tradicionais e de muita harmonia.



O PRIMEIRO DESFILE


Mestre Thiago inscreve o G.R.E.S. Quilombo no “Pholia” (antigo Pholia na Faria), evento pré-carnavalesco sempre realizado uma semana antes dos desfiles oficiais das escolas de samba. Hoje o Pholia realiza-se no Memorial da América Latina, na Barra Funda – bairro do Camisa Verde e Branco e local berço do samba paulista nas décadas de 1930/ 1940.


Por sugestão de Alécio, um dos intérpretes do Quilombo, o samba de desfile foi “A Epopéia de Zumbi”, de autoria do grande sambista Nei Lopes; e sobre este enredo André Machado desenvolveu os figurinos das fantasias adequando-os às precárias condições financeiras da escola.


No dia 27 de janeiro de 2008, às 16hs45min o Pholia recebeu uma escola de samba organizada e muito empolgada, vibrante e emocionada pelo discurso de seu Presidente Mestre Thiago que chegou às lágrimas. Aquele primeiro desfile para os quilombolas não era apenas uma ‘folia de carnaval’, era a primeira grande vitória de uma comunidade perseverante que sustentou seus ideais de fundação e confiou na total dedicação daqueles que estavam à sua direção; naquele desfile o G.R.E.S. QUILOMBO conseguiu seu apogeu – desfilou a simplicidade, mas muito além de tudo curou a mudez do samba no carnaval, mostrou-se uma verdadeira escola de samba - novo Palmares do Samba Paulista!


“Hoje é manhã de carnaval (ao esplendor)
As escolas vão desfilar (bravosamente)
E aquela gente de cor
Com a imponência de um rei
Vai pisar na passarela (salve a Portela)
Vamos esquecer os desenganos (que passamos)
E ver a alegria que sonhamos (durante o ano)
E damos o nosso coração
Alegria e amor a todos sem distinção de cor
Mas depois da ilusão, coitado!
Negro volta ao humilde barracão
Negro acorda é hora de acordar
Não negue a raça
Torne toda manhã dia de graça
Negro não humilhe nem se humilhe à ninguém
Todas as raças já foram escravas também
E deixe de ser rei só na folia
E faça da sua Maria uma rainha de todos os dias
E cante samba na universidade
E verá que seu filho será
Príncipe de verdade
Aí então, jamais tu voltarás ao barracão!”
(Dia de Graça, Mestre Candeia)


“A chama não se apagou”
Grêmio Recreativo Escola de Samba Quilombo 
O Negro é a nossa inspiração. O Samba é a nossa vocação!!!”